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Secretaria de Estado e FCMS assinam protocolo de intenções com a Comissão Estadual da Verdade, Memória e Justiça

Quem não conhece o passado corre o risco de ser atropelado por ele. E foi pensando em reduzir os danos deste atropelamento que o secretário de Estado de Cultura, Turismo, Empreendedorismo e Inovação (SECTEI), Athayde Nery e o coordenador-geral  do Comitê Estadual da Verdade, Memória e Justiça, Lairson Ruy Palermo, assinaram um protocolo de intenções com a Comissão Estadual da Verdade para a instalação do Memorial da Resistência de Mato Grosso do Sul. A solenidade, aberta ao público, aconteceu no Museu da Imagem e do Som, unidade da Fundação de Cultura de MS.

A ação visa preservar o patrimônio cultural acumulado pelo Comitê através de ações específicas e conjuntas dos vários setores da política cultural, no propósito de proteção e reparação dos direitos violados e negados a antigos militantes, ex-políticos, estudantes e trabalhadores que lutaram e lutam em defesa dos direitos humanos, nos territórios do antigo sul do Mato Grosso e posteriormente no Mato Grosso do Sul. O Comitê representa diversas entidades civis que realizam investigações sobre as ações do governo militar durante a ditadura no Estado.

A reunião sela uma ação determinante e colaborativa para com o Comitê da Verdade e objetiva esclarecer fatos e circunstâncias de casos considerados de gravidade na violação de direitos humanos. Para o secretário Athayde, a situação política conturbada de hoje no país é reflexo destes tempos considerados sombrios.

“Éramos proibidos de fazer reuniões, não podíamos nos organizar e vivemos ainda reflexos perversos da ditadura. Toda essa construção de um congresso nacional absolutamente desprovido de relação política e ideológica é resultado desses trinta anos de ditadura que destruiu lideranças e sucumbiu o Brasil em um estado de absoluto silêncio. Quantas gerações foram submetidas a esse processo odioso de impedimento do pensamento livre? Não podemos nunca esquecer tudo o que passou e jamais deixar que se repita”, desabafou Athayde.

Para o Psicólogo e representante do CRP 14/MS no Comitê, Marco Aurélio Portocarrero, “mais do que nunca o resgate da história neste momento é de fundamental importância para a democracia, já que grande parcela da população desconhece a verdade dos fatos, não tem ideia do que foi este período de escuridão, falta de liberdade, torturas e desrespeito aos Direitos Civis. Conhecer os atores dessa historia, os reais inimigos do Brasil e aqueles que deram suas vidas pelo ideal de uma sociedade justa, onde todos pudessem viver melhor, longe do medo e da submissão aos ditadores. poderá possibilitar à população, um melhor entendimento crítico de nosso presente e de nosso futuro.Parabéns a Secretaria de Cultura de MS por esta ação educativa de valorização da Memória e da Verdade”.

 

Agradecendo a realização da Sectei, o coordenador-geral  do Comitê, Lairson Ruy Palermo apostou na ideia de que mesmo com pensamentos diferentes, o propósito final deve ser sempre o oposto a ditadura.

“Em nome de todos os membros do Comitê deixo minha gratidão e reconhecimento ao secretário e todos os envolvidos por contribuírem para este momento. Os partidos tem que se unir democraticamente independente de ideologias políticas. Não temos que ser a favor de um do outro, mas temos que ser a favor do Brasil. Nós já vivemos isso. E o caminho é esse, de fazer encontro de pensamentos diferentes que convergem para a defesa da democracia”, apostou Lairson.

O secretário geral da Fundação Maurício Grabois, Thiago Custódio, lembrou também que não só militâncias de partidos políticos sofreram repressão, mas também pequenos grupos como indígenas e comunidades negras.

“Precisamos de ações que consigam dialogar com a singularidade da repressão no MS, que não envolve só a militância orgânica, mas a questão indígena, o negro e outros excluídos. Esta ação é importante não só por resgatar o passado, mas por transformar o Memorial em uma luz para o futuro, pois a tarefa da democracia não se realizou, é uma vigília permanente. Temos que fazer com que o passado exista enquanto presente e enquanto memória para que ele jamais se repita. Esquecer não é o melhor caminho”, discursou.

O Comitê

O Comitê surgiu em maio de 2012. Tal comissão tem por objetivo realizar investigações sobre os vários crimes cometidos pelo Estado brasileiro entre os anos de 1937 e 1985. Nesse período há interesse especial em buscar os crimes que aconteceram nos dois regimes ditatoriais dessa época: o Estado Novo, criado no governo de Getúlio Vargas entre 1937 e 1945, e a Ditadura Militar, ocorrida entre 1964 e 1985.

No MS o Comitê surgiu por iniciativas de Lairson Palermo, hoje coordenador executivo, Fausto Mato Grosso (PPS), Walmir Correa (PSB), Leonardo Machado (UNE), Mário Cesar Fonseca (PCdoB), Antonio Carlos Espindola (PMDB), Ricardo Fróis (CTBMS),  Lilian (CUT-MS), Joatan Loureiro (OABMS),  Marco Aurélio Porto (UFMS), Edivaldo Bispo e Hermano Melo do Conselho Marçal de Souza Tupã. Participam também as fundações legalmente constituídas na composição do Comitê como: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Conselho Regional de Psicologia de MS, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MS), CDDH Marçal de Souza, União Nacional dos Estudantes (UNE) e outra centrais sindicais.

Só em Mato Grosso do Sul, cerca de mil pessoas entraram na justiça por atos cometidos no governo militar. Grande parte dos processos no Estado estão relacionados a perseguições e invasões de privacidade. É conhecido também que existiu em Corumbá em 1964, um navio da Marinha brasileira que foi atracado num trecho do Rio Paraguai próximo ao Porto Geral, que serviu de prisão para estudantes, políticos, empresários e trabalhadores que eram contra o sistema político da época. No local, segundo investigações, eles eram torturados, capturados e presos, reprimidos e perseguidos politicamente.